Crédito mais seletivo abre espaço para Fiagros; ROCA11 aposta em pulverização para reduzir riscos

Crédito mais seletivo abre espaço para Fiagros; ROCA11 aposta em pulverização para reduzir riscos
Crédito mais seletivo abre espaço para Fiagros; ROCA11 aposta em pulverização para reduzir riscos (Foto: Unsplash)

O aperto no crédito destinado ao agronegócio está abrindo espaço para o mercado de capitais com os fiagros ocupar uma fatia maior do financiamento do setor.

Com bancos mais seletivos e recursos subsidiados insuficientes para acompanhar o crescimento da produção, gestores de Fiagros enxergam oportunidades no crédito privado — mas destacam a necessidade de selecionar cuidadosamente os tomadores.

Para Pedro Baumeier, portfolio manager da Ceres, o ambiente atual é diferente de um ciclo de abundância de crédito. Segundo ele, a gestora estruturou o fundo justamente em um momento de maior restrição de recursos para o produtor rural.

“Foi num momento que a gente encontrou de aperto, e não de euforia, e acho que foi de propósito. Os bancos estavam diminuindo o custeio, o Plano Safra cresceu pouco. Ou seja: a demanda por crédito está subindo e a oferta caindo. Então, para quem empresta, isso vira prêmio”, afirma.

A combinação entre maior demanda e menor oferta, porém, também aumenta a importância da análise de crédito. Para o gestor, o desafio está em distinguir produtores que enfrentam dificuldades momentâneas daqueles que apresentam problemas estruturais de capacidade de pagamento.

“A oportunidade que eu vejo aqui é pra você conseguir separar o produtor que está apertado do que está quebrado”, diz Baumeier.

Mercado de capitais ganha espaço no financiamento do agro

A avaliação da Ceres é que a participação maior do mercado de capitais no financiamento agrícola não representa apenas um movimento conjuntural, mas uma mudança estrutural na forma como o setor acessa recursos.

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“O crédito rural subsidiado é orçamento público. O orçamento não acompanha o tamanho do agronegócio brasileiro. Então, essa diferença tem que ser financiada por algum lugar. E esse lugar é o mercado de capitais”, afirma o gestor.

Nesse ambiente, os Fiagros aparecem como uma das estruturas capazes de conectar investidores ao crédito rural. Para Baumeier, o crescimento dessa indústria não deve ser analisado apenas pelo volume de emissões de cada instrumento, mas também pela migração dos investidores entre diferentes veículos de financiamento.

“Em 2026, a gente teve uma emissão de CRA caindo, enquanto a captação de Fiagro subiu. Então, isso não é o agro saindo do mercado de capitais. É o investidor trocando de veículo, saindo de papel de devedor único, indo pro fundo, que tem uma gestão ativa, tem subordinação, tem diversificação”, explica.

O movimento aumenta a responsabilidade dos gestores na composição das carteiras. No caso do ROCA11, uma das estratégias adotadas é trabalhar com recebíveis pulverizados, reduzindo a dependência do pagamento de um único produtor.

ROCA11 busca pulverizar risco entre centenas de produtores

A Ceres procura operações originadas próximas à cadeia produtiva, especialmente por meio de revendas de insumos e cedentes acompanhados pela gestora. A proximidade com esses agentes, segundo Baumeier, permite obter informações adicionais sobre os produtores que tomam o crédito.

“A Ceres é de Uberaba, a gente está no Triângulo Mineiro. Isso muda muito porque a gente não origina por telefone. A operação chega por revenda de insumo, pelo cedente que a gente acompanha há anos, o crédito é contra o produtor que compra ali. Então, isso muda a informação que a gente tem sobre o devedor”, afirma.

Além da origem das operações, a pulverização dos recebíveis é um dos pilares da estratégia. Em vez de concentrar o risco em grandes devedores individuais, a carteira pode ter operações cujo pagamento depende de centenas de produtores.

“A gente tende a olhar pra uma compra que não é uma dívida de uma empresa grande, é recebível de insumo. Nota fiscal, pulverizado, entre centenas de sacados. Quando um sacado tem algum problema, a carteira sente pouco. Então, isso é bem diferente de comprar um crédito em um único devedor corporativo”, explica.

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A estrutura também muda a leitura sobre a concentração da carteira. Uma eventual concentração por emissor não significa necessariamente que o fundo esteja exposto a poucos devedores finais.

“Quando a gente vê concentração, é uma concentração pelo emissor. Então, a gente tem CRAs que são do mesmo emissor. Só que quem vai pagar o que está dentro desse CRA, que é o nosso lastro, são centenas de sacados diferentes”, afirma.

Gestora quer ampliar diversificação da carteira

Apesar da pulverização dos recebíveis, a Ceres pretende reduzir também a concentração entre emissores. A gestora afirma que busca novas operações para ampliar a diversificação do portfólio do ROCA11.

“A gente tem um plano declarado para os próximos meses que é reduzir isso. Então, a gente quer ter uma carteira mais pulverizada também. A gente está indo pro mercado comprar CRAs corporativos pra ajudar na diversificação dessa carteira”, diz Baumeier.

A busca por diversificação ocorre em um momento em que o fundo praticamente concluiu a alocação dos recursos de sua segunda emissão. Com mais capital investido, a gestão passa a ter como foco a composição da carteira e a identificação de novas oportunidades no mercado de crédito.

O gestor destaca que o objetivo não é necessariamente maximizar o retorno de cada operação isoladamente, mas construir uma carteira com diferentes exposições e menor dependência de eventos específicos.

“Pulverização com certeza é onde nós queremos e vamos trabalhar sempre muito forte, pra melhorar o fundo. Mesmo que não mude o retorno de imediato, a gente acaba diversificando o risco”, afirma.

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Gestão ativa é aposta para atravessar diferentes ciclos

Além da análise de crédito e da pulverização, a Ceres destaca a possibilidade de alterar a composição da carteira conforme as condições do mercado mudem.

O cenário de juros também entra nessa equação. Como parte dos ativos é indexada ao CDI, uma eventual queda da taxa básica tende a reduzir a remuneração nominal das operações. Por outro lado, juros menores podem aliviar o custo financeiro dos produtores e melhorar sua capacidade de pagamento.

“Se a gente pensar na taxa caindo, no curto prazo, a receita nominal do fundo cai, porque a nossa carteira trabalha indexada ao CDI. Acaba que você vai acabar tendo um cupom menor em reais. Mas isso não influencia o nosso spread, porque a gente entrega sempre CDI mais algo”, explica Baumeier.

A gestora também acompanha oportunidades no mercado secundário, onde ativos podem aparecer com desconto diante da necessidade de determinados investidores de vender posições.

“No secundário, está tendo uma escassez de CRA. Então, a gente vai tentando buscar aqui nomes bons que a gente consegue comprar por desconto, por não ter pressão de compra. Tem gente querendo sair de posição e não tem quem compre”, afirma.

Para Baumeier, a capacidade de adaptar o portfólio é justamente uma das características que diferenciam uma estratégia de gestão ativa.

“Temos uma gestão ativa. No dia que a gente entender que alguma dessas partes deixa de ser, a gente muda a carteira, avisa o cotista e da forma mais transparente. Então, eu acho que é justamente esse olhar ativo sobre o que a gente está alocando que é o que a gente busca dar”, conclui.

Com a segunda emissão praticamente alocada, o ROCA11 entra em uma nova etapa, marcada pela busca por maior diversificação e pela gestão ativa dos riscos de crédito. Em um cenário de demanda crescente por financiamento e oferta mais restrita de recursos tradicionais, a estratégia da Ceres é encontrar operações que ofereçam prêmio sem abrir mão da pulverização dos devedores.

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foto: Vinícius Alves
Vinícius Alves
Jornalista

Jornalista formado na Faculdade Cásper Líbero. Com passagens pela Agência Estado e Editora Globo.

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