Energia solar ganha espaço em projetos públicos e amplia oportunidades no mercado
A adoção da energia solar começa a avançar para além de residências e empresas e passa a integrar também projetos estruturantes do setor público. Um exemplo recente é o acordo firmado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com a Companhia Energética de Brasília (CEB) e a Terracap para compensar integralmente o consumo anual de eletricidade do Tribunal por meio de geração fotovoltaica. A iniciativa também deverá marcar as Eleições 2026 como o primeiro pleito em que todo o consumo anual de energia do TSE será compensado por geração solar.
O projeto envolve uma usina construída no Catetinho, no Distrito Federal, com investimento de R$ 15,8 milhões, 5.628 painéis solares e potência instalada de 4,024 MWp. A estrutura deve produzir aproximadamente 7,7 milhões de kWh por ano e será integrada a uma unidade de cerca de 1 MW já existente na sede do Tribunal.
Embora tenha um caráter institucional, o movimento evidencia uma transformação mais ampla na matriz elétrica brasileira: a geração fotovoltaica vem ganhando participação rapidamente e já representa uma parcela relevante da capacidade instalada do país. Dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) apontam que o Brasil alcançou 74,3 GW de capacidade solar instalada em julho de 2026, considerando geração centralizada e distribuída.
O avanço também se reflete nos investimentos. Segundo a ABSOLAR, a fonte solar já movimentou R$ 328,2 bilhões em novos investimentos no país desde 2012, além de ter contribuído para a criação de mais de 2,2 milhões de empregos. O número de sistemas de geração distribuída também ultrapassou 4,7 milhões.
Da geração própria à energia compartilhada
A geração distribuída é uma das principais responsáveis por esse movimento. O modelo permite que a eletricidade seja produzida próxima ao local de consumo, reduzindo a necessidade de grandes estruturas de transmissão e ampliando o acesso à geração renovável.
Esse avanço também favorece modelos nos quais o consumidor não precisa necessariamente instalar os próprios painéis. Usinas solares podem produzir energia em um determinado local e disponibilizar créditos de geração para consumidores conectados à rede, criando uma estrutura de receitas recorrentes para os empreendimentos.
É nesse ponto que a expansão da energia solar começa a se aproximar do mercado de capitais. Além de instalar painéis em imóveis próprios ou contratar soluções de geração compartilhada, investidores podem buscar exposição à infraestrutura responsável pela produção dessa energia.
Um exemplo é o SNEL11, fundo imobiliário da Suno Asset voltado a ativos relacionados à geração de energia limpa e renovável. A estratégia do fundo está concentrada em empreendimentos de geração distribuída fotovoltaica, com contratos de longo prazo, incluindo estruturas do tipo take-or-pay e contratos de compensação de energia.
Infraestrutura solar chega ao mercado financeiro
A carteira do fundo vem crescendo junto com o mercado. Em janeiro de 2026, o SNEL11 anunciou a aquisição de 20 usinas solares por R$ 436 milhões, adicionando 87,5 MWp de capacidade instalada ao portfólio, distribuída por oito estados brasileiros. Em abril, outra operação, de R$ 123,4 milhões, acrescentou cinco usinas e 23,5 MWp de capacidade.
Na prática, a estrutura permite ao investidor ter exposição a ativos físicos de geração de energia por meio de um veículo listado em bolsa. O racional combina, portanto, a expansão de uma infraestrutura que vem ganhando espaço na matriz brasileira com um modelo de investimento baseado em empreendimentos que geram receita a partir da produção e comercialização dos créditos de energia.
O crescimento da fonte solar ocorre em um momento em que a demanda por energia também ganha novos vetores, incluindo data centers, digitalização e inteligência artificial. Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado das renováveis começa a exigir investimentos em transmissão, armazenamento e gestão da oferta, mostrando que a expansão do setor envolve desafios além da instalação de novos painéis.
Nesse cenário, a geração distribuída pode representar uma frente relevante dentro da transformação do sistema elétrico brasileiro. A expansão da capacidade instalada e o aumento do número de consumidores conectados à geração solar indicam que a fonte já deixou de ocupar um espaço secundário na matriz para se tornar uma das principais frentes de crescimento do setor elétrico.
Crescimento abre novas frentes para investidores
Para o investidor, isso amplia o número de formas de participar do avanço da energia renovável. Fundos como o SNEL11 representam uma alternativa de acesso indireto a ativos reais ligados à geração solar, enquanto a expansão do setor cria novas oportunidades para diferentes modelos de financiamento da infraestrutura energética.
O caso do TSE ajuda a ilustrar essa mudança: quando uma instituição pública passa a estruturar sua operação para compensar integralmente o consumo anual de eletricidade com geração solar, o movimento deixa de ser apenas uma tendência restrita a consumidores interessados em reduzir a conta de luz e passa a fazer parte de estratégias institucionais de gestão de energia.
Mais do que um projeto isolado, a iniciativa reforça a dimensão que a energia solar vem assumindo no Brasil. De grandes usinas a sistemas de geração distribuída e veículos de investimento, a expansão da fonte cria uma cadeia de oportunidades que conecta infraestrutura, transição energética e mercado de capitais.