CACR11: BRL Trust renuncia à administração em meio à crise; gestor diz que decisão não teve explicação
A crise envolvendo o CACR11 (Cartesia Recebíveis Imobiliários) ganhou um novo capítulo com a renúncia da BRL Trust à função de administradora do fundo. A decisão foi comunicada ao mercado por meio de fato relevante e ocorre em um momento de pressão sobre o FII, marcado pela suspensão de dividendos, retenção de caixa, atrasos em projetos imobiliários e desvalorização das cotas.
Segundo a administradora, a gestora Cartesia Investimentos foi notificada sobre a renúncia em 7 de julho. Agora, será convocada uma Assembleia Geral de Cotistas para deliberar sobre a escolha de uma nova administradora. Até que isso ocorra — ou pelo prazo máximo previsto na regulamentação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — a BRL Trust permanecerá responsável pela administração do fundo imobiliário.
Gestora diz que não recebeu justificativa
Em entrevista ao Estadão/E-Investidor, o sócio da Cartesia Capital e gestor do fundo, Richard Sippli, afirmou que a gestora foi apenas comunicada sobre a decisão da administradora, sem acesso às razões que motivaram a renúncia.
“A Cartesia Capital foi apenas informada da decisão, sem acesso aos detalhes que motivaram a renúncia.”
Até o momento, a BRL Trust não apresentou, no fato relevante que comunicou a renúncia, os motivos para deixar a administração do fundo.
A renúncia ocorre dias após a administradora convocar uma assembleia para que os cotistas deliberem sobre a manutenção da retenção de, no mínimo, 95% do resultado do primeiro semestre de 2026. A proposta busca preservar recursos em caixa diante das dificuldades enfrentadas pelo fundo.
Suspensão de dividendos e preservação de caixa
Nos últimos meses, o CACR11 suspendeu distribuições de rendimentos em diferentes momentos. No mesmo período, as cotas do fundo registraram forte desvalorização.
Ao Estadão/E-Investidor, Richard Sippli defendeu a estratégia adotada pela gestora, afirmando que a prioridade é manter recursos suficientes para concluir os empreendimentos que integram a carteira do fundo.
“Se eu pagar dividendos e fizer o cotista feliz hoje, não vou ter dinheiro para tocar as obras amanhã.”
Segundo o gestor, atrasos burocráticos relacionados ao registro de incorporação e à emissão do “Habite-se” em projetos como Savoie (BA), Viva Itaparica (BA) e Station (SP) impediram a entrada de recursos prevista originalmente.
“Essa burocracia não estava na nossa programação e frustrou a entrada de caixa.”
De acordo com Sippli, a retenção dos resultados tem como objetivo preservar a liquidez do fundo, financiar a continuidade dos empreendimentos e suportar eventuais despesas extraordinárias até que as vendas dos imóveis possam avançar.
Contexto da crise
A situação do CACR11 se deteriorou ao longo dos últimos meses. Conforme informou o Valor Investe, o fundo passou por suspensão de dividendos, reprovação das demonstrações financeiras pelos cotistas e dificuldades em operações de crédito imobiliário da carteira.
A gestora informou aos investidores que o primeiro semestre foi marcado por eventos que impactaram a liquidez do fundo e justificaram a estratégia de preservação de caixa.
Ainda de acordo com o Valor Investe, a expectativa da Cartesia é restabelecer gradualmente a distribuição de rendimentos ao longo do segundo semestre, condicionada ao avanço dos projetos imobiliários que enfrentam atrasos regulatórios e comerciais.
Em entrevista ao Estadão/E-Investidor, Sippli também afirmou que operações de incorporação imobiliária envolvem riscos superiores aos de outros segmentos do mercado e exigem que o investidor compreenda as características da estratégia adotada pelo fundo.
“Desde o início do fundo, nossa taxa média de retorno é de IPCA +13% ao ano. E isso não acontece por acaso. Esse retorno existe porque o risco também é elevado.”
A escolha de uma nova administradora será definida pelos cotistas em assembleia, enquanto o mercado acompanha os próximos desdobramentos envolvendo o CACR11.