CACR11 dispara mais de 14%; FII fará pagamento após cotistas rejeitarem retenção de dividendos
O fundo imobiliário CACR11 (Cartesia Recebíveis Imobiliários) anunciou que fará uma distribuição de rendimentos aos cotistas após investidores rejeitarem a proposta de retenção dos resultados do primeiro semestre. O pagamento ocorre em um momento de crise de liquidez do fundo, marcado nos últimos meses pela suspensão de dividendos, forte desvalorização das cotas e pela renúncia da BRL Trust à administração fiduciária.
O anúncio provocou uma reação expressiva na Bolsa nesta quarta-feira (19). Às 15h58, o CACR11 era o fundo imobiliário que mais subia no pregão, com avanço de 14,31%, negociado a R$ 16,38 por cota, alta de R$ 2,05 no dia. Os números representam um retrato daquele momento da sessão e podem sofrer alterações até o fechamento do mercado.
Segundo comunicado ao mercado, o pagamento será realizado para que a distribuição alcance o percentual mínimo de 95% do resultado apurado pelo regime de caixa no primeiro semestre. A medida decorre da decisão tomada pelos cotistas em consulta formal encerrada em 17 de julho.
O fundo havia apurado R$ 25,41 milhões em resultado pelo regime de caixa entre janeiro e junho. Desse montante, R$ 18,57 milhões já haviam sido distribuídos. No relatório gerencial de junho, a gestão calculou que seria necessário distribuir aproximadamente R$ 5,57 milhões adicionais, equivalentes a cerca de R$ 1,15 por cota, para atingir o patamar de 95%.
O comunicado mais recente, porém, deve ser lido no contexto da situação financeira enfrentada pelo fundo. O pagamento não significa, por si só, que a distribuição mensal de dividendos tenha sido normalizada ou que os problemas de liquidez tenham sido superados.
Cotistas rejeitaram retenção dos resultados
No fim de junho, a administração convocou os investidores para decidir se o CACR11 poderia deixar de distribuir pelo menos 95% do resultado do primeiro semestre. A intenção era conservar recursos dentro do fundo para reforçar sua liquidez, financiar o andamento de obras relacionadas às operações da carteira e arcar com eventuais despesas extraordinárias.
A proposta acabou rejeitada. Cotistas representando 16,16% das cotas emitidas participaram da consulta. Votos equivalentes a 9,44% das cotas rejeitaram a retenção, enquanto 5,51% aprovaram a proposta. Outros 1,17% se abstiveram e 0,04% declararam conflito.
Depois da votação, a BRL Trust informou que aguardava uma manifestação da gestora Cartesia para que fosse proporcionada a liquidez necessária ao caixa do fundo para realizar a distribuição determinada pelos investidores.
A decisão colocou pressão adicional sobre uma posição financeira que já era restrita. No informe mensal referente a junho, o CACR11 apresentava apenas R$ 232,5 mil destinados às necessidades de liquidez, enquanto aproximadamente R$ 478,05 milhões estavam aplicados em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs).
CACR11 vendeu CRI por R$ 23,5 milhões
Um movimento importante ocorreu em agosto. O CACR11 concluiu a venda integral de sua posição nos CRIs relacionados à operação Helvetia por R$ 23,5 milhões, pagos à vista e liquidados financeiramente em 13 de agosto. O acordo também prevê participação do fundo em eventual resultado futuro relacionado à recuperação do crédito.
O CRI Helvetia estava entre as operações problemáticas da carteira. Após negociações com a devedora e outras partes envolvidas não chegarem a uma solução, houve vencimento antecipado em 14 de maio e início do processo de execução das garantias.
Ao explicar a venda, a própria Cartesia afirmou que vinha buscando gerar caixa por meio da entrada de coinvestidores e de negociações de ativos no mercado secundário. Segundo a gestora, a decisão dos cotistas sobre a distribuição dos resultados do primeiro semestre tornou a necessidade de geração de liquidez ainda mais urgente.
Crise derrubou cotação e levou administradora a renunciar
Os problemas do CACR11 já haviam chegado à Bolsa. Em 1º de julho, quando o fundo informou que não distribuiria os dividendos referentes a junho, as cotas caíram 16% em uma única sessão. Naquele momento, a perda acumulada em 2026 chegava a 70,5%.
A deterioração prosseguiu. O relatório gerencial de julho registrou cota de mercado de R$ 15,75, diante de um valor patrimonial de R$ 102,16 por cota. O patrimônio líquido informado era de aproximadamente R$ 494,1 milhões.
Outro capítulo da crise ocorreu em 10 de julho, quando a BRL Trust formalizou sua renúncia às funções de administradora do CACR11. A Cartesia afirmou posteriormente que se tratou de uma decisão unilateral da administradora. A renúncia, entretanto, não provoca a liquidação automática do FII, e a substituição da instituição precisa seguir os procedimentos previstos na regulamentação.
Além disso, o processo de auditoria das demonstrações financeiras referentes a 2025 seguia em andamento pela RSM Brasil, segundo informações divulgadas pela gestão em julho.
Pagamento não significa fim da crise
O anúncio atual representa, portanto, o cumprimento da decisão tomada pelos próprios cotistas sobre o resultado acumulado no primeiro semestre, e não necessariamente a retomada regular dos dividendos mensais.
Em 31 de julho, administração e gestão haviam comunicado que não haveria distribuição de resultados referente àquele mês. A obtenção de R$ 23,5 milhões com a venda do CRI Helvetia posteriormente reforçou o caixa do fundo, enquanto o novo comunicado confirma a distribuição necessária para alcançar o percentual referente ao resultado semestral.
A sequência deixa dois temas centrais no radar dos investidores: a recomposição da liquidez e a transição da administração fiduciária. O comportamento das demais operações de crédito da carteira também permanece relevante para a capacidade futura de geração de caixa.
Assim, o novo pagamento do CACR11 precisa ser separado de uma eventual normalização dos dividendos. O fundo informou a distribuição relacionada ao resultado do primeiro semestre após a rejeição da retenção pelos cotistas, enquanto os demais desdobramentos da crise continuam em andamento.